No dia 5 de outubro de 1985, com 85 anos de idade, morreu Guilherme Ferreira Thedim: uma vida longa e uma personalidade rica, cujo memorial será oportuno relembrarmos, tendo em atenção as suas esculturas, na Igreja Paroquial.

Como escultor sacro, Guilherme Thedim atingiu a craveira máxima de grandeza e perfeição, deixando o País e até o mundo semeado de obras de arte saídas de suas mãos. Trabalhou para os Estados Unidos, para Espanha, para África e, sobretudo, encheu os nossos templos com as lindas imagens de Nossa Senhora de Fátima e outras esculturas preciosas.

Na Igreja Paroquial de Santa Cruz do Bispo, a importância do artista ficará assinalada com as esculturas da Senhora da Saúde, Senhora de Fátima, Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, para além de outras imagens que se encontram na capela de S. Brás. São também de Guilherme Thedim as magníficas imagens da Senhora de Fátima da Igreja de Matosinhos e de Leça da Palmeira. Serve esta pequena amostra para referir a grandiosa implantação do artista no nosso meio.

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Thedim, grande escultor, foi também Mestre e formou escola. Daí, terem surgido e ainda existirem discípulos seus, embora, hoje em dia, a arte sacra esteja condicionada pela estandardização das formas e pelos pantógrafos que, em competição com a criatividade artística, levam a melhor na voracidade do tempo.

O escultor Manuel Nogueira referencia o seu começo na Escola de Thedim como assim o “António dos Aflitos”, figuras da arte sacra, que outrora floresceu nesta freguesia, com Guilherme Thedim e Alfredo Maia, dois escultores de vulto de Santa Cruz do Bispo.

Os livros paroquianos referenciam profusamente a sua atividade, quer na Irmandade de Nª. Sª. Do Livramento e S. Brás, quer na atividade paroquial e na vida política de Santa Cruz do Bispo. (…)

Proveniente de família católica, casou com outra alma de eleição, a sua companheira Laura Celina. O casal Thedim tudo fez para dar aos seus numerosos filhos a melhor formação religiosa e humana. Porventura, o seu esforço terá sido levado longe demais, mas foi essa a bússola orientadora da sua vida, foi esse um dos grandes dramas da sua existência. Pelo menos, a coerência e a força da convicção religiosa serão, no tempo, a grande herança.

Deve figurar entre os vultos da história Santa Cruz do Bispo.

Em 1997, foram concluídas dois novos arruamentos em Santa Cruz do Bispo, sendo um deles a rua nova, desde o Largo Viscondessa D.Maria Dias de Sousa até à travessa da rua P.e António Rocha Reis. Para homenagear o artista, a essa rua foi dado o nome de Guilherme Ferreira Tedhim, escultor do séc.XX.

Nasceu em S.Mamede de Coronado, no seio de uma família de escultores-santeiros de longa tradição, vindo para Matosinhos por intermédio de um casamento com uma jovem de Santa Cruz do Bispo, onde instala, então, a sua oficina que, durante os cinquenta anos seguintes, produzirá importante obra, recebendo nos primeiros anos o importante incentivo de uma grande figura de Matosinhos, o seu amigo padre Grilo.

Sem qualquer formação académica na área, é em 1934 que, na “1ª Exposição Colonial Portuguesa”, cria a peça que o consagra, definitivamente, o seu nome para a ribalta- a imagem do mártir Gabriel Perboir- arrecadando o Grande Prémio na Secção de Belas Artes, o maior destaque concedido à produção de imagens religiosas no certame realizado no Palácio de Cristal, no Porto.

Uma marca na carreira a que, mais tarde, se vem associar uma outra que, até hoje, não mais deixou morrer o nome daquele que foi um dos seus co-autores -a de Nossa Senhora de Fátima. O seu irmão mais velho, José Guilherme Thedim, recebe a encomenda, mas os dois trabalham nela em plena cumplicidade. Uma produção envolta, recentemente, em alguma polémica quando se defende que na construção da imagem a oficina Thedim não teria respeito os pormenores dos relatos dos videntes. “Quem o afirma, não faz a mínima ideia do que está a dizer e muito menos de como se faz uma imagem”, contrapõe José Manuel Thedim. Disso, aliás, procura ser testemunho um conjunto de documentação, nomeadamente um “Inquérito sobre as aparições” que envia à vidente Lúcia. Aliás, o mestre Guilherme terá sido das poucas pessoas autorizadas pela Igreja Católica a contactar diretamente com Lúcia, tendo-se deslocado repetidamente ao Convento de Coimbra, onde esta se encontrava, tendo, inclusive, destes contactos resultado uma relação de amizade comprovada por uma troca de correspondência.

Fonte: Texto Retirado Monografia Santa Cruz do Bispo, Matosinhos 2018, páginas 54 a 56.