Dados Biográficos

D. Maria Dias de Sousa, a quem a freguesia conhece como
Veneranda Viscondessa de Santa Cruz do Bispo, nasceu nesta terra em 30 de
Dezembro de 1816. Descendia de família pobre e não sabia escrever.

Casou, em Santa Cruz do Bispo, a 24 de Fevereiro de 1837, com António Francisco
Pereira, um marítimo que foi capitão da Marinha Mercante,
conhecido por «Mirão». Não teve filhos.

Herdou avultada fortuna do Brasil legada por seu tio José Dias de Sousa,
falecido em Porto Alegre, em 1865.

Viveu a maior parte da sua vida no lugar da Ponte, da Freguesia de
Matosinhos, mas, com o seu marido, esteve profundamente ligada à vida social
e religiosa da sua terra natal. Nos livros paroquiais do seu tempo faz-se
abundante referência do relacionamento com a freguesia que engrandeceu de
um modo jamais ultrapassado.

Nos livros de Actas da, outrora, importante Confraria do SS. Sacramento,
encontra-se a ficha de inscrição de Maria Dias de Sousa e seu marido, como
irmãos honorários, admitidos em 15 de Dezembro de 1865. Foram também
admitidos para a Irmandade de Nª. Sª. do Livramento, em 1866, como consta
também do livro de actas desse tempo, assim como dos registos de Irmãos,
sendo-lhes atribuídos os números 68 e 67, respectivamente. 

A partir dessas datas reafirmaram de um modo cada vez mais influente a
ligação com a vida da freguesia. Encetaram toda uma série de
empreendimentos em benefício quer da Irmandade de Nª  Sª  do Livramento,
quer da Igreja Paroquial, quer da Comunidade em geral, de acordo com
os livros paroquiais e os documentos da Irmandade zelosamente guardados no
Arquivo da Paróquia. Pelos mesmos documentos consta que em 31 de Janeiro
de 1885, faleceu o marido da Viscondessa, António Francisco Pereira, cujo
nome continua visível nas lápides das capelas da Sª. da Guia e de Nª. Sª. do
Livramento e em retratos a óleo na Sacristia e em S. Brás.

Em acta de 05-02-1885, a Irmandade de Nª. Sª. do Livramento manifesta voto
de profundo sentimento, manda rezar missa na capela, manda distribuir
esmolas aos pobres e manifesta à esposa, viúva, D. Maria Dias de Sousa, o
respeito mais sagrado (Cfr. P. 36). A mesma Irmandade não só considerou os

seus benfeitores como sócios honorários como lhes atribuiu a categoria
máxima de Juízes honorários.

Título de Viscondessa

Em 1892, foi concedido o título de Viscondessa a D. Maria Dias de Sousa, por
El-Rei D. Carlos: Mercê nova. Alvará de 30 de Junho de 1892. As suas armas
«Escudo. Lisonja partida em pala; a primeira em campo de oiro, e a segunda
de vermelho com uma cruz de prata lisa e dentro dela uma pequena cruz negra.

Coroa de Viscondessa.Timbre: uma estrela de oiro».

Os títulos de nobreza eram adquiridos na época como distinção para pessoas
beneméritas. Para D. Maria Dias de Sousa, terá sido o reconhecimento e
consagração oficial da sua generosidade e qualidades de carácter, cuja
nobreza se reflectiu no contributo prestado à colectividade.

Profundamente religiosa, não admira que se destaque a sua acção a favor das
Instituições Religiosas, todavia orientadas para o serviço da Comunidade. Além
disso, era de tal generosidade que, com frequência, batiam à sua porta para
socorrer situações mais prementes. Desse modo, a sua benemerência
estendeu-se por toda a parte, ao redor da sua terra.

Em 12 de Março de 1899, com 82 anos de idade, faleceu a grande benemérita
da Freguesia de Santa Cruz do Bispo e figura de primeiro plano da sua história.
O seu corpo jaz em sepultura própria e condigna na Capela de seu nome no
cemitério nº. 1, da Freguesia a cuidado perpétuo da Junta que, anualmente,
recorda o seu aniversário.

O alvará régio concedeu-lhe o título de Viscondessa e a gratidão popular o
apelido de Veneranda e, desse modo, é para esta terra a Veneranda
Viscondessa de Santa Cruz do Bispo.

A Sua Obra na Freguesia

A simples enumeração dos empreendimentos subsidiados por D. Maria Dias de
Sousa e seu marido será suficiente para compreender o alcance e importância
da sua presença nesta terra:
A saber:
- Reedificação da Capela de Nª. Sª. do Livramento (1880);
- Alargamento do Adro, casas e escadaria de acesso no Monte de S. Brás
(1880);
- Sacristia da Igreja Paroquial (1881);
- Escola de Nª. Sª. da Guia, para meninos (1888);
- Escola da Bomba, para meninas (1890);
- Residência Paroquial (1890);
- Edificação da Capela de Nª. Sª. da Guia, na sua forma actual (1890);
- Poço de S. Brás para gastos da Irmandade e casas em (1899);
- Capela-Jazigo no Cemitério (1886);
- Doações várias à Irmandade e à Junta da Paróquia, entre as quais se
destacam: alfaias litúrgicas, toalhas douradas, jarras de prata, ouro, dinheiro
etc..., conforme relatório extenso do testamento feito em 12 de Outubro de
1897;
- Legado de 400 mil réis para a Irmandade de Nª. Sª. do Livramento para
custear obras e reparações, assim como um pátio;
- Doação, por testamento, de dinheiro a muitas pessoas da Freguesia, entre as
quais o pároco Revº. Manuel Alves da Cruz, com 400 mil réis.

Só por esta vasta obra, que na sua maior parte continua de pé e ao serviço da
colectividade, merecerá a Veneranda Viscondessa perpétua veneração e
homenagem por parte de quem, nesta terra, cultivar a memória histórica. Por
essa razão, desde há muito que a Freguesia deu ao largo da Igreja, que a partir
de 1939, tem o aspecto actual, o nome de Largo da Viscondessa.

A Sua Obra Fora da Freguesia

Vivendo na Freguesia de Matosinhos, também a essa estendeu
a Viscondessa a sua generosidade e não só. Dotou a Igreja de riquíssimos

paramentos e alfaias, fez a doação do edifício do Asilo de Nª. Sª. da
Conceição, criou a escola de Gonçalves Zarco, actualmente extinta. Deixou
dinheiro e valores às confrarias do SS. Sacramento de Matosinhos e de Leça
da Palmeira; à Capela de Stº. Amaro, a Santiago de Custóias, a S. Mamede de
Perafita, S. Lenho de Moreira e a Nª. Sª. da Luz da Foz do Douro, onde existe
o seu retrato. Beneficiou também o Hospital Maria Pia, Creche de S. Vicente de
Paulo, Oficina de S. José, Asilos etc..., além de bem repartir a sua fortuna por
caseiros, conhecidos e necessitados. O seu testamento, aliás, é uma autêntica
ladainha de generosidade.

A Memória da Viscondessa

A Freguesia conserva a memória da Viscondessa não apenas nos
monumentos que são hoje de utilidade pública, mas também nos vários
quadros a óleo que a representam, com os membros da sua família, os quais
embelezam a Sacristia que mandou edificar. A restauração dos quadros
da Viscondessa e família, aliás, deve-se ao zelo da Junta de Freguesia, assim
como a sua reposição no lugar próprio. A mesma Junta, também depositária do
legado da Veneranda Viscondessa, anualmente, recorda o seu aniversário com
uma missa que manda celebrar. Antigamente, essa missa, que ocorre em 12
de Março, era participada por todas as crianças e professores que, desse
modo, exprimiam a gratidão da Freguesia e o cumprimento da vontade
testamentária da fundadora das «suas» escolas. Aliás, será sempre nobre que
a Veneranda Viscondessa continue a receber a homenagem e a memória de
um povo, perenemente, orgulhoso da sua História.

Uma das referências de louvor do seu tempo do livro das actas do SS.
Sacramento de Santa Cruz do Bispo, reunião de 14 de Agosto de 1881, pág.
30:
«O Senhor Juíz ao usar da palavra lembrou à mesa os relevantes serviços
prestados a esta Freguesia pelo Exmo. Sr. António Francisco Pereira e sua
Exma. esposa D. Maria Dias de Sousa e mostrou conveniência de a
Assembleia Geral de Irmãos testemunhar d'alguma forma o seu

reconhecimento àqueles benfeitores pelos benefícios com que melhoraram a
Igreja mandando-lhe construir uma Sacristia digna de louvor geral.
Foi esta aprovada por unanimidade e usando da palavra o Irmão Benjamim
D'Oliveira propôs para este fim que, na acta desta sessão fosse lavrado um
voto de profundo reconhecimento e louvor ao Exmo. Sr. António Francisco
Pereira e sua Exma. esposa D. Maria Dias de Sousa, e que desta ata se
extraísse uma cópia que fosse levada aos ditos benfeitores» (Cfr. Arquivo
Paroquial).

Fonte: "Santa Cruz do Bispo" (Edição da Comissão de Festas em Honra
de Nª. Sª. da Saúde em 1981)