O Pároco António Francisco Ramos, na sua obra Lavra. Apontamentos para a sua Monografia, dá conta da antiguidade de Lavra. Devemos começar pelas provas documentais esta descrição: em 1033 foi doada a vila plana, grande prédio rústico de origem romana e que hoje é a freguesia de Vila Chã (Vila do Conde). No respetivo título de doação, para melhor se identificar o prédio, diz-se que ele fica no território labremse et Portugal (Diplomas e Cartas dos Portugalliae Monumenta Histórica, nº 281). Daqui se vê que no princípio do século XI Lavra era uma povoação de certa importância, pois que, apesar de não ser centro de governo, deu o nome a um território que concorre com o portucalense. Uma escritura de fundação e dotação de várias igrejas, feita no ano de 897, fala do monastario labra, isto é, mosteiro de Lavra, afirmando a sua antiguidade. Ora, se este mosteiro já era antigo em 897, é evidente que a povoação, labra, de que ele tomou o nome, devia ser (ainda) mais antiga. Estes documentos atestam bem a antiguidade de Lavra, uma povoação não só antiga, mas antiquíssima, certamente anterior ao domínio de Roma, muito mais importante do que aquilo que é hoje.

Vimos, até agora, a formação de Lavra como povoação; vamos, daqui para a frente, ver a sua origem como freguesia. O território que ela ocupa não corresponde exatamente ao da antiga villa rural que se converteu em freguesia. Efetivamente, no século XIII, a Onda e Calvelhe pertenciam a Lavra, mas, mais tarde, no século seguinte, os referidos lugares passaram a pertencer a Labruge. É impossível determinar com exatidão a data em que a villadeixou de existir e a freguesia começou, porque tal transformação foi muito demorada; porém, o que se sabe é que as freguesias desta aldeia no século XIII já funcionavam com regularidade. El-Rei D. Afonso III mandou proceder a Inquirições sobre os direitos reais a fim de verificar quais as terras que tinham sido usurpadas à coroa. Estas inquirições dão-nos valiosas informações sobre o funcionamento jurídico e administrativo da Idade Média e, além disso, referência óbvias a Lavra, Cabanelas, Palaciolo (Paiço), Pampelido, Casal, Unda (Onda), Angeses (Angeiras) e Calvili (Calvelhe). É, também, curioso observar a evolução toponímica que os lugares – e freguesias – atravessaram.

A carta de foral dada à Maia por El-Rei D. Manuel I tem a data de 15 de dezembro de 1519 e dele constam, como era habitual e procedimento obrigatório, os direitos e foros que esta terra devia pagar e, igualmente, os tributos de que ficava isenta. O foral referia-se a várias povoações, de entre elas Lavra, o que nos informa que no século XVI este território pertencia ao Concelho da Maia. Em 1758, por ocasião da realização do inquérito das memórias paroquiais, de forma a avaliarem-se os estragos causados pelo terramoto de 1755, D. José I ordenou que todos os párocos do reino, por intermédio do bispo, respondessem a um minucioso questionário de forma a elaborar-se um «Dicionário Geográfico de Portugal». Sobre Lavra lê-se, nos resultados do inquérito, o seguinte: «FREGUEZIA DO SALVADOR DE LAVRA, DA COMARCA DA MAIA: Primeiramente esta freguezia de Lavra fica na Provincia de Entre Douro e Minho, pertence ao Bispado do Porto, e é da Comarca da Maia, mais vizinha a dita cidade do Porto, e termo e jurisdição da mesma cidade».

Lavra é, atualmente, formada por oito lugares: Pampelido (com o desenvolvimento da orla costeira, hoje em dia, identificam-se, informalmente, outros dois lugares: Agudela e Marreco), Avilhoso, Cabanelas, Paiço, Antela, Lavra, Angeiras e a Praia de Angeiras, que constituem a única comunidade de pesca artesanal do concelho. Neste sentido, percebemos que Lavra é, de todos os pontos de vista, o espaço que mais conservador se mostra, e, ao mesmo tempo, mais curiosidades nos oferece. Os Lavrenses, os seus habitantes, deixam de ser apenas lavradores e pescadores para se dedicarem, também, aos setores secundário e terciário. Esta freguesia constitui o elemento responsável pelo intercâmbio linguístico entre o norte e o sul do concelho de Matosinhos. Mas como esse elemento representa uma pequena parcela da população, Lavra mantém-se fiel à maior parte das suas tradições, conservando uma linguagem característica, diferente da de todas as outras freguesias do concelho, que tem vindo a diluir-se no tempo.